O cuidado que nenhuma tecnologia consegue substituir
- Quinta-Feira, 10 Setembro 2026
- 0 Comentário(s)

Há uma contradição interessante no nosso tempo. Nunca tivemos tantos recursos para facilitar a vida e, ao mesmo tempo, continuamos enfrentando necessidades profundamente humanas que nenhuma ferramenta conseguiu resolver.Temos acesso imediato à informação, podemos conversar com alguém que está do outro lado do mundo em segundos, encontramos respostas para quase qualquer dúvida e contamos com tecnologias capazes de organizar boa parte da nossa rotina. Ainda assim, continuamos precisando de cuidado, direção, descanso e presença.Talvez porque algumas necessidades humanas não sejam problemas que a tecnologia possa solucionar.Precisamos ser conhecidos. Precisamos ser ouvidos. Precisamos de pessoas que percebam quando alguma coisa não está bem, mesmo quando não conseguimos explicar o que está acontecendo.É nesse ponto que uma das imagens mais conhecidas das Escrituras volta a ganhar uma profundidade que pode passar despercebida.“O Senhor é o meu pastor.”Davi poderia ter descrito Deus de muitas maneiras. Escolheu uma figura que, para sua época, representava proximidade, direção, proteção e responsabilidade.Um pastor não apenas aponta uma direção e desaparece. Ele acompanha o caminho. Conhece o terreno. Reconhece os perigos. Sabe quando é necessário avançar e quando é necessário parar.O Salmo 23 não apresenta uma vida sem dificuldades. Pelo contrário. Em determinado momento, Davi fala sobre o vale da sombra da morte. O vale faz parte da caminhada. O que muda é a presença.Isso é diferente de muitas mensagens religiosas que prometem uma espécie de blindagem espiritual contra os problemas da vida. A Bíblia não apresenta essa promessa. O próprio Salmo 23 não diz que o vale deixará de existir. Diz que, mesmo ali, existe companhia.Essa perspectiva também confronta uma ideia muito valorizada atualmente: a de que ser forte significa não precisar de ninguém.Existe valor em autonomia, responsabilidade e maturidade. Mas ninguém foi criado para carregar sozinho todo o peso da existência. Reconhecer limites não é fracasso. Admitir que precisamos de direção não nos torna menos capazes.Talvez o problema seja que aprendemos a cuidar de tantas coisas que esquecemos como receber cuidado.Cuidamos da carreira, dos filhos, dos negócios, das contas, dos projetos e das pessoas que dependem de nós. Continuamos funcionando mesmo quando estamos cansados. Muitas vezes, a única coisa que não fazemos é parar para reconhecer que também precisamos ser conduzidos.É justamente aqui que a imagem do Salmo 23 encontra sua plenitude em Cristo.No Evangelho de João, Jesus não apenas utiliza a linguagem do pastor. Ele afirma: “Eu sou o bom pastor”. E acrescenta que o bom pastor dá a vida pelas ovelhas. A imagem deixa de ser apenas uma metáfora sobre proteção e se torna uma revelação sobre quem Cristo é.Ele não oferece apenas instruções para a caminhada. Ele se coloca no caminho.Isso muda também a maneira como entendemos confiança. Confiar em Cristo não significa saber antecipadamente como cada problema será resolvido. Significa reconhecer que nossa visão é limitada e que a fidelidade de Deus não depende da nossa capacidade de prever o futuro.Há momentos em que teremos clareza. Em outros, teremos apenas o próximo passo. O Salmo 23 continua atual porque não fala para uma geração específica. Fala para seres humanos que, em diferentes épocas, continuam experimentando medo, cansaço, perda e desejo de encontrar algum lugar de descanso.É por isso que a sua Palavra continua atravessando séculos e gerações. Não porque prometem uma vida sem vales, mas porque apresentam um Pastor que não abandona o caminho quando o vale começa.Em uma época que nos ensina a resolver tudo sozinhos, existe algo profundamente contracultural em reconhecer que precisamos ser conduzidos.E talvez a maturidade da fé não esteja em ter todas as respostas, mas em saber em quem confiar quando elas ainda não chegaram. Matheus Grismaldi (@ogrismaldi) é jornalista, escritor e missionário em Angola, África. Autor de Simplificando a Paternidade de Deus, é idealizador do Clube Logos, projeto dedicado à literatura cristã e à construção de uma cosmovisão fundamentada nas Escrituras.* O conteúdo do texto acima é uma colaboração voluntária, de total responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a opinião do Portal Guiame.Leia o artigo anterior: Quando tudo desaba, o que ainda permanece?







